Em: Pra Ler, postado por: Convidado
24 ago 2009Por Bruno Bastos*
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Sou designer e bebedor de cerveja (ou seria o contrário?). Há alguns anos descobri que essa tão popular bebida, podia proporcionar experiências sensoriais (além de etílicas) muito interessantes.
Nessa aventura dos sentidos, visão, olfato, paladar e tato entram em ação nos revelando prazeres únicos. E, para o designer, eu diria que a diversão começa antes mesmo do primeiro gole. Exatamente em frente à gôndola do supermercado, observando os rótulos e embalagens das próximas cervejas que serão consumidas.
Nos últimos três anos, o mercado de cervejas artesanais no Brasil cresceu de maneira intensa. Hoje, todos os bons supermercados dos grandes centros contam com uma boa variedade de rótulos nacionais. E é justamente sobre eles que vamos falar (afinal, este é um post de design!).
Os rótulos das cervejas produzidas pelas micro-cervejarias brasileiras seguem, basicamente, dois padrões estéticos: o das escolas mais antigas (alemã, belga e inglesa) e o do ‘novo mundo’ da cerveja (principalmente Estados Unidos e Canadá).
O primeiro é marcado pela utilização de elementos visuais que tem como intenção primordial, conferir status aos produtos pelo viés da tradição. Tipografia gótica, ornamentos vintage e referências àqueles países, são a tônica.
As cervejas da Eisenbahn, de Blumenau (cidade de colonização alemã), são bons exemplos de design de rótulos que encontram nesta estética sua maneira de atingir o bebedor mais exigente.
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Eisenbahn significa ferrovia em alemão e lá está a foto (não uma ilustração, como normalmente é usado) de uma locomotiva em tons de sépia, envolvida por dois ramos de cevada e flores de lúpulo (ingredientes-chave, junto com o fermento). O logotipo é baseado em antiga tipografia alemã: letras condensadas, bold, com serifas quebradas e geométricas.
A outra corrente tem como principal característica, exatamente a falta de compromisso com a estética do velho mundo (apesar das principais receitas serem provenientes destes países). E aí, o céu - ou melhor, a criatividade - é o limite.
Os EUA são o país com o maior número de micro-cervejarias no mundo (mais de 1.500). E elas são conhecidas pela ousadia em ‘reciclar’ as receitas clássicas européias. Muitas vezes adicionando outros ingredientes como chocolate e mel. A mesma ousadia se reflete na criação dos rótulos, onde muitas vezes não encontramos nenhuma referência à bebida ou aos seus ingredientes.
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É o que se pode dizer da cervejaria Colorado, de Ribeirão Preto, que segue o jeito inventivo norte-americano de se fazer cerveja (misturam rapadura e até mandioca) e tem os rótulos mais criativos e complexos do mercado brasileiro. Criados pelo americano Randy Mosher, o visual das embalagens da cervejaria paulista também refletem o conceito ‘mistura’.
Peguemos, por exemplo, a Colorado Indica. Nela podemos ver adornos que remetem à estética indígena latino-americana, tipografias no estilo Art Noveau, e o mais interessante: uma ilustração do Taj Mahal (!). Mas que diabos o Taj Mahal tem a ver com cerveja? Explico. A Colorado Indica é uma cerveja do estilo inglês India Pale Ale. Ela foi criada no século 18 - época em que soldados ingleses serviam na Índia. Como ninguém agüenta a labuta sem uma cervejinha no fim do dia, Londres enviava, por navio, a bebida a seus soldados.
Agora faz sentido, não?
…
Alguns exemplos da velha escola:
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E alguns exemplos da nova escola:
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*Bruno Bastos é designer, criador da marca de camisetas Pind-o-rama e desde 2005 se dedica à séria desgutação de cervejas.
Papel Pixel é fruto da necessidade de discutir a prática da comunicação visual e seus desdobramentos no design, na publicidade e no pedestre dia-a-dia.
10 Comentários para
"Conversa de botequim: tradição, inovação, design e cerveja"
Bernardo Nicolau
agosto 25th, 2009 at 15:55
Cerveja e design, existe par mais perfeito? Parabéns pelo post!
manuel amado
agosto 25th, 2009 at 17:14
Muito bom Bruno!
Foda que terça-feira às 12:15h estou com uma vontade imensa de ir pro bar…
Saúde!
Jean Marcus
agosto 25th, 2009 at 17:21
Nada melhor que Leffe blond! Ninguém melhor que os Belgas para fazer boa cerveja!
Bruno Bastos
agosto 25th, 2009 at 21:32
Uma curiosidade relevante. A cerveja tida como a melhor do mundo - a belga Westvleteren 12 - não tem rótulo. Apenas uma singela garrafa de vidro marrom sem nada impresso. Essas belezinhas se vendem sozinhas!
Lucienne Condé
agosto 25th, 2009 at 23:54
Calou a boca de todos!! Bruno Bastos, designer que entende TUDO de cerveja. Parabéns!!!
Alexandre Bastos
agosto 26th, 2009 at 17:35
Parabéns pelo texto. Além da criatividade que lhe é inerente, seja em razão do ofício, seja porque é algo imanente a sua alma, me surpreendeu sua boa escrita. Eu, que por ter a sorte de ser seu irmão, me aproveito de seus conhecimentos cervejeiros e tenho a oportunidade de degustar esses pequenos, porém complexos, prazeres da vida. Até a próxima degustação! Ê Sorte!
JForni
setembro 1st, 2009 at 18:52
Tenho certeza que agora de férias, o “bebedor de cerveja Buno Bastos” está superando o “designer Buno Bastos”, ehehhee!
Ótimo texto Brunão. Não esperava menos.
Abs.
Thiago Machado
setembro 1st, 2009 at 20:49
Grande, Bruno - designer, camarada e bebedor de cerveja!
Saudade dos tempos de bons colegas de trabalho…
Eduardo Sarmento
fevereiro 5th, 2010 at 19:12
Combinação Perfeita, graças ao mix de mesa de bar + cerveja + amigos + formadores de opinião e o efeito único da cerveja que amplifica a criatividade, já foram fechados vários bons freelas que talvez nunca fossem concretizados em um escritório!!!!
JForni
fevereiro 10th, 2010 at 20:04
Falou e disse Dudu!
Mas conhecendo o amigo como conheço, sei que depois de “algumas doses” de vodka, leia-se litros, teu orçamento passa a ser bem mais favorável ao cliente que a você próprio, ahahahaha.
Grande abs.
:)